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segunda-feira, 16 de março de 2009

IIIª Catequese Quaresmal de D. Manuel


III Domingo da Quaresma
“ A relação com Deus é estruturante da vida pessoal e comunitária”

1.Celebramos o III Domingo da Quaresma. Com ele entramos no núcleo central deste tempo forte de preparação para a Páscoa e de revisão da vida cristã de todos os baptizados. De facto, o 3º, o 4º e o 5º domingos da Quaresma constituem uma unidade e pretendem que a Igreja e todos os seus fiéis se interroguem, com a máxima seriedade, sobre as formas como deve ser vivida a Fé em Jesus Cristo, sua celebração e consequências quer na vida social quer quanto à esperança na Vida eterna. Hoje celebramos também o dia Nacional da Caritas, a lembrar a passagem de S. Paulo aos Coríntios: “Se não tiver caridade nada sou”.

2. A Palavra de Deus hoje proclamada na Assembleia Eucarística do domingo continua a falar-nos da Aliança. Aliança que Deus estabeleceu com a humanidade no seu conjunto através de Noé; estabeleceu com o Povo eleito, através de Abraão e hoje renova através de Moisés, conforme descrição do Livro do Êxodo. Pela aliança, Deus escolhe o Povo de Israel e faz dele o Seu Povo eleito; este compromete-se a cumprir os 10 mandamentos, cuja lista o Livro de Êxodo hoje nos apresenta. A Lei da Nova Aliança, interpretada por Jesus Cristo, resume os 10 mandamentos em 2 apenas – amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. O Evangelho de hoje, ao apresentar-nos o episódio da purificação do Templo, remete a nossa atenção para o verdadeiro culto devido a Deus e para o verdadeiro templo onde esse culto lhe é prestado. Para a nova aliança todo o verdadeiro culto se resume no único sacrifício de Cristo. Por isso, como lembra hoje a I Carta aos Coríntios, o Coração da mensagem cristã, segundo S. Paulo, é Cristo crucificado, escândalo para os Judeus e loucura para os Gentios. E o verdadeiro Templo onde se pratica esse verdadeiro culto passou a ser a pessoa de Cristo Ressuscitado.

3. A Palavra de Deus hoje convida-nos a recordar os 10 mandamentos, através da passagem do Livro do Êxodo. E nós vamos considerar especialmente os 3 primeiros mandamentos voltados para a recomendação de amar a deus sobre todas as coisas. De facto, o primeiro manda-nos amar a Deus sobre todas as coisas; o segundo manda-nos não invocar o Santo nome de Deus em vão e o 3º manda-nos santificar o dia do Senhor.
3.1. Estes 3 mandamentos, que constituem o primeiro dos 2 em que se resume o decálogo, colocam a relação com Deus no centro da nossa vida pessoal e comunitária e lembram não só às pessoas mas à própria sociedade que Deus e a relação com ele são muito importantes na organização da vida tanto dos indivíduos, como das comunidades.
Deus é o Criador e o Senhor da história que oferece a todos a mesa da criação e todos os bens de que precisamos para viver a vida com verdadeiro entusiasmo e sentido.
Em troca de toda a generosidade que nos dedica, desde a criação à história das suas relações connosco através do Povo eleito e da Igreja e sobretudo através da Pessoa de Cristo, Deus pede-nos apenas a retribuição do Seu amor. Amor esse que desabrocha no verdadeiro culto celebrado no novo Templo que é Cristo ressuscitado e a Sua Igreja.
3.2.Deus vem ao nosso encontro para fazer de nós a Sua Família. E nós aceitamos essa vinda de Deus ao nosso encontro através da Fé, virtude sobrenatural também ela um dom de Deus. Sendo dom de Deus, a Fé não dispensa o nosso esforço para a alimentar sobretudo com a leitura assídua da Palavra de Deus, que hoje é actualizada na Palavra da Igreja especialmente resumida no Catecismo. E esforço também para a defender, sobretudo aprofundando as razões de esperança que nos vêm de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo no diálogo e mesmo no confronto com as muitas visões do mundo e da vida hoje existentes, muitas delas em clara oposição aos valores profundamente humanos da nossa Fé.
A Esperança no sentido positivo da história presente e sobretudo na Vida Eterna é outro dos grandes bens que Deus coloca na nossa vida pessoal. É um bem que nos defende do desespero e nos empenha cada vez mais em fazer tudo o que está ao nosso alcance para orientar a história do mundo confiada à nossa responsabilidade. Por sua vez, a caridade cristã, para além de ser resposta ao amor infinito que Deus nos dedica desde toda a eternidade, há-de fazer resplandecer o amor divino nas nossas relações sociais. Quando, de alguma forma, fazemos oposição à presença e ao amor de Deus no meio do mundo e da história, para além de cometermos uma ingratidão inqualificável, colaboramos no maior dos prejuízos de que a humanidade pode ser vítima.
3.3.Vivemos hoje um modelo de organização social onde a laicidade é regra comummente aceite. Mas laicidade não pode significar a expulsão de Deus nem da vida pessoal nem da vida social. Deve representar apenas um distanciamento dos poderes públicos relativamente às formas de organizar a vivência da Fé. De facto, esta é responsabilidade dos cidadãos e de organizações específicas. Mas aos poderes públicos compete criar todas as condições necessárias ao exercício do direito e dever que os cidadãos têm de promover, viver e celebrar a Fé. É assim que deve ser entendido o correcto exercício da Liberdade religiosa, tanto por parte dos cidadãos como dos poderes públicos. A autêntica liberdade religiosa nunca pode ser entendida como silêncio sobre o facto religioso, muito menos como indiferença, oposição ou simples tentativa de a fazer recuar para a esfera privada do indivíduo.
A Liberdade religiosa só ficará devidamente assumida e cumprida quando saudavelmente se criarem todas as condições objectivas para que os indivíduos e as comunidades vivam efectivamente o dever de acolherem Deus nas suas vidas, de lhe prestarem o culto devido e assim contribuírem para o maior bem da Sociedade.
E as autoridades públicas não podem argumentar com o pluralismo religioso para fugirem a esta sua responsabilidade. Pois, também o diálogo e a cooperação entre as várias religiões devem ser promovidas, sem prejuízo de criar as condições necessárias para que cada uma delas viva a sua identidade e realize a missão específica que lhe compete.
De facto, o vazio de simbologia religiosa no espaço público e todas as tentativas de expulsar Deus da vida social em nada ajudam a autêntica humanização da sociedade.
3.4. Manda-nos o 2º mandamento não invocar o santo nome de Deus em vão. Ao longo da história, sempre que as pessoas quiseram expressar um especial empenho das suas vidas em favor das grandes causas, faziam-no e fazem-no, invocando o nome de Deus como garantia da fidelidade aos seus compromissos. É por isso que ainda recentemente, na sua tomada de posse, o Presidente americano fez juramento de fidelidade sobre a Bíblia. A ninguém é legítimo quebrar o juramento de fidelidade ou, pior ainda, instrumentalizar a força sagrada que vem da invocação do nome de Deus para fins contrários ao bem. O que significa que a relação com Deus é factor importante de responsabilização das pessoas perante a vida social.
3.5. Manda-nos o 3º mandamento santificar o Dia do Senhor, que para a tradição do Antigo Testamento era o Sábado e para os cristãos é o Domingo.
O domingo, termo que em si mesmo quer dizer dia do Senhor, de facto adquiriu importante centralidade na vida cristã pessoal e comunitária. Santificar o Domingo, primeiro dia da Semana, é para nós em primeiro lugar, participar na assembleia da comunidade e Eucaristia dominical; mas é também dedicar mais tempo à escuta meditada da Palavra de Deus, à acção apostólica e à prática da caridade. Para além disso, o domingo tem uma componente social da maior importância, enquanto dia de descanso semanal. Na nossa tradição ocidental, desde os tempos do Imperador Constantino, que assim acontece.
E, na realidade, esta componente humana e social do domingo é importante para a vida das pessoas em geral, que assim têm possibilidade de dar à Família o tempo e as atenções que lhe não podem dar durante os dias de semana; ou simplesmente organizar para seu bem pessoal e dos outros os tempos livres que ele representa. O domingo é, assim, uma instituição de raízes cristãs que passou a marcar o ritmo semanal da vida da sociedade e como tal há-de ser defendido pelas próprias leis civis como um valor de maior importância para a qualidade de vida das pessoas.
Que o Senhor nos ajude a aproveitar bem esta Quaresma para fazer dos mandamentos da Lei de Deus a luz orientadora de toda a nossa vida e da vida da própria sociedade.

Catedral da Guarda, 15 de Março de 2009
Manuel R. Felício. Bispo da Guarda

segunda-feira, 9 de março de 2009

II Domingo da Quaresma - Comprometidos com Cristo na transformação

1.Estamos no II Domingo da Quaresma, que nos apresenta o quadro da Transfiguração do Senhor Jesus Cristo, diante dos Apóstolos Pedro, Tiago e João, no Monte Tabor. Ao lado de Cristo estavam Moisés e Elias, representando a Lei e os Profetas do Antigo Testamento. Do meio da nuvem ouve-se a voz misteriosa de Deus Pai, a testemunhar quem é Jesus Cristo – “ Este é o meu Filho muito amado: escutai-O”.
Os três Apóstolos não escondem a tentação que tiveram – permanecerem naquele lugar para sempre e por isso querem fazer 3 tendas; mas Jesus tinha outros planos para eles e mandou-os descer do monte, porque o mundo os esperava. Neste quadro simbólico, Jesus revela a Sua identidade divina e de salvador, pela transfiguração, pela Palavra do Pai e pelo testemunho da própria Lei e dos Profetas do Antigo Testamento. Os 3 apóstolos sentem-se bem naquele quadro de transfiguração, mas, de facto, precisam eles próprios também de muita transformação, pois ainda não compreendem o que é ressuscitar dos mortos. Ao descerem com Jesus do monte, sentem o mundo como o campo da sua própria missão; um mundo a que é preciso levar a transfiguração de Cristo, depois de experimentada nas suas próprias pessoas.
Para dar cumprimento a esta tarefa evangelizadora e transformadora de si próprios e do mundo eles precisam, como nós hoje precisamos, de cultivar a atitude fundamental da fidelidade – fidelidade a Cristo e aos planos de Deus.
A Palavra de Deus apresenta-nos hoje, no Livro do Génesis, o exemplo por excelência dessa fidelidade. Abraão estava disposto a tudo sacrificar para cumprir a vontade de Deus. Por isso, não lhe negou a realidade mais cara da sua vida, que era o próprio Filho, três vezes lembrado, no texto Bíblico, como seu Filho único. De facto, a fidelidade de Abraão e a sua Fé no Deus único é modelo para nós cristãos e discípulos de Cristo que, pelo Baptismo, estamos identificados com Ele e, por consequência, chamados a segui-L0 para o anúncio do Evangelho aos homens e mulheres do mundo de hoje.
Nesta tarefa evangelizadora, difícil mas urgente e que exige o empenho total das nossas vidas, não estamos sós. Acompanha-nos o próprio Jesus Cristo, Filho único de Deus que o próprio Pai entregou à morte por todos nós. Lembra-no-lo hoje a Carta aos Romanos. Esta é a prova máxima do amor de Deus por todos nós e pela própria humanidade. O facto de sentirmos, como a primeira comunidade dos apóstolos e dos discípulos, que Deus está do nosso lado é uma maravilhosa consolação, mas sobretudo uma força extraordinária que nos mobiliza e nos entusiasma a procurar criativamente os caminhos da nova evangelização.
2. Como os 3 Apóstolos que desciam com Jesus do monte da Transfiguração, sentimos que a nossa missão é levar ao mundo a novidade do Evangelho de Jesus. Mas sentimos também como eles que a nossa preparação para esta tarefa ainda não está completa. Eles não sabiam o que era ressuscitar dos mortos e nós precisamos também de continuar a percorrer os caminhos do verdadeiro conhecimento de Cristo e da Sua mensagem que nos chega hoje sobretudo na Bíblia e no Catecismo.
Por agora, vamos fixar a nossa atenção na responsabilidade que nos é pedida, como cristãos e como cidadãos, para intervirmos na transformação de nós próprios e do mundo, de acordo com o Evangelho.

2.1. De facto, nós sentimos que somos, em alguma medida, donos de nós mesmos e do mundo, que nos está entregue para o conhecermos, organizarmos e governarmos, sempre no respeito por regras que não dependem de nós.
Cada um de nós enquanto pessoa e cidadão cumpre esta missão através de decisões livres e responsáveis que dão origem a actos portadores do nosso compromisso voltado para promover o Bem de todos e cada um dos seres humanos e impedir tudo o que é mau.
Esse centro onde cada um de nós toma as suas decisões chama-se consciência e podemos defini-la como sendo o íntimos mais íntimo de cada pessoa, o santuário onde cada um de nó, confrontando-se com os imperativos que lhe vêm de si mesmos, da sociedade, do mundo e, como sua fonte última, do próprio Deus, formula as suas escolhas. Destas decisões da consciência derivam os actos humanos, que são bons ou maus conforme cumprem ou não as leis inscritas no coração do mundo e da sociedade, mas sobretudo no coração de cada ser humano pelo próprio criador.
Estes actos humanos, resultantes de decisões livres, distinguem-se de outros actos do homem e da mulher que não resultam da sua liberdade mas somente cumprem mecanismos biológicos de sustentabilidade do organismo ou são determinados pelos instintos.
A consciência é assim a capacidade própria de cada homem e de cada mulher para formularem o seu juízo de valor e os actos humanos são os canais por onde esse juízo de valor se aplica para transformação da realidade pessoal, social e mundana.
Por sua vez, o juízo da consciência será recto, se ele se ajustar à verdade do ser humano, da sociedade e do próprio mundo e às consequentes exigências de bem nela implicadas; será erróneo ou errado se não se lhe adaptar, com ou sem culpabilidade.
Desse juízo depende também a moralidade dos actos humanos, que, por isso, classificamos de moralmente bons se se ajustarem à verdade e ao Bem; de moralmente maus, quando há desajustamento, seja positivamente desejado seja apenas consentido.
Para cumprir a sua importante missão, a consciência precisa de liberdade e autonomia, o que implica total ausência de coacção exterior na formulação do seus juízos.
Todavia, a mesma consciência precisa também de assumir o dever de estar sempre a ajustar-se à Verdade e ao Bem. Isto chama-se formação da consciência, que é uma obrigação de todas e cada uma das pessoas .
Na formação da consciência tem de obrigatoriamente estar implicado o indivíduo, mas também o devem estar as instituições de que ele legitimamente tem direito a esperar ajuda, como são a família, a escola e outras, incluindo todos os responsáveis pela condução da vida pública.
Pelo que fica dito, concluímos que os actos humanos não são todos iguais, porque uns são bons e outros não; e concluímos também que a sua bondade ou maldade não dependem apenas do sujeito que os pratica, mas sim da Verdade e do Bem que o transcendem e lhe ditam regras, a que ele responsavelmente não pode fugir.
Os actos humanos, bons ou maus, resultam da decisão da consciência como dissemos, a qual é também determinada pela actividade do conjunto das Faculdades do ser humano, a começar pelas chamadas faculdades superiores que são a inteligência, a razão e a vontade. Em todo esse processo intervêm igualmente a sensibilidade humana e as emoções, assim como as características próprias da maneira de ser de cada indivíduo.
À influência da sensibilidade e sobretudo das emoções sobre todo o processo que conduz aos actos humanos costumamos chamar-lhe de paixões. Em si mesmas, as paixões, na medida em que garantem a ligação entre a vida sensível e a vida do espírito são um importante potencial humano, que pode ser aproveitado para promover o bem, através das virtudes; mas também o pode ser quer para o mal, através dos vícios.

2.2 – As Virtudes são hábitos bons e costumamos defini-las como sendo disposições habituais e firmes para fazer o Bem. Os vícios são hábitos maus.
É verdade que o ser humano se determina, nas suas opções, não apenas por actos isolados, mas também por hábitos. Dentro das virtudes ou hábitos bons distinguimos as grandes Virtudes humanas das virtudes sobrenaturais, a que andam ligados os 7 dons do Espírito Santo e os chamados também frutos do Espírito. As grandes Virtudes humanas fazem parte do humanismo que caracteriza a nossa tradição ocidental, desde a cultura grega. Também lhe chamamos virtudes cardeais e são a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança.
As virtudes sobrenaturais ou teologais são dons de Deus oferecidas a cada um de nós para fortalecer as faculdades humanas e torná-las aptas a produzirem actos que, por natureza, as transcendem. Essas virtudes sobrenaturais também chamadas teologais são a Fé, a Esperança no Reino de Deus e na Vida Eterna e a Caridade, entendida como o próprio Amor Divino traduzido em gestos e atitudes humanas, à maneira de Cristo encarnado.
Juntando a estas virtudes os 7 dons do Espírito Santo e os 12 frutos da Sua acção em nós, fica constituído o ambiente sobrenatural em que se desenvolve toda a nossa actividade humana para darmos cumprimento à responsabilidade que Deus nos confia com a finalidade de conduzirmos o Mundo pelos caminhos da verdade e do Bem.

2.3. Não podemos esquecer-nos agora que este quadro tem o seu reverso da medalha. De facto, ao mesmo tempo que somos ajudados por Deus e pela Sua Graça, pelas virtudes humanas e teologais, incluindo os dons do Espírito Santo, a percorrer os caminhos da verdade e do bem, também somos constantemente desviados desses caminhos pelo pecado e pelos vícios que lhe andam ligados.
O pecado é a recusa deliberada de cumprir os desígnios de Deus sobre o Mundo, a história e a própria pessoa enquanto tal. Em consequência, o pecado é o acto pelo qual a pessoa corta relações com o mundo e com os outros seres humanos, remetendo-se ao isolamento. E as relações são destruídas, porque a pessoa que peca não quer, de facto, respeitar a verdade e as leis da verdade inscritas no interior dos próprios seres que, por vocação, espelham em si mesmos o amor de Deus. Apesar de tudo, nem todos os pecados têm o mesmo peso ou a mesma gravidade. Por isso distinguimos o pecado mortal e grave do pecado venial e leve. Nesta linha, a tradição cristã considera especialmente graves os chamados pecados que bradam ao céu.
Além disso, todo o pecado, sendo, à partida um acto isolado e pessoal, gera novos dinamismos de pecado que afectam o próprio sujeito e também todos aqueles que estão na rede das suas relações. Aparecem, assim, os vícios contrários às virtudes. Os chamados 7 pecados capitais, na realidade são vícios que contrariam as virtudes correspondentes.
Compreendemos agora como os pecados individuais sempre tiveram e continuam a ter repercussão negativa na vida social, pervertendo as mentalidades e enfraquecendo as pessoas no esforço por construir a sua vida pessoal e a vida da sociedade segundo o bem de todos. Por isso nós falamos de pecados sociais e mesmo de estruturas de pecado, que acabam por condicionar negativamente as decisões e os actos de cada pessoa.

2.4. No emaranhado desta teia de relações e solicitações que caracteriza a vida do homem e da mulher em sociedade, o importante é cada um de nós fazer as suas escolhas com responsabilidade. E as escolhas serão sempre entre o Bem e a Verdade e os actos humanos consequentes, por um lado, e a manifesta recusa ou simples desinteresse por seguir os caminhos da Verdade e do Bem, por outro lado. Jesus Cristo é sempre um apelo forte para nós fazermos a primeira escolha e nesse apelo se resume o essencial da sua mensagem que é também o núcleo da Boa Nova Evangélica – “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”.
Todos desejamos que esta Quaresma seja também resposta decidida de cada um de nós ao chamamento de Cristo. Como cristãos e cidadãos queremos ficar mais dispostos a percorrer os caminhos da autêntica conversão pessoal, na prática consciente e decidida da verdadeira moral evangélica. Uma moral que há-de repercutir na transformação do mundo, segundo a transfiguração de Cristo no Tabor.

Que Deus nos ajude.


Sé da Guarda, 8 de Março de 2009
+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda

segunda-feira, 2 de março de 2009

Homilia I Domingo da Quaresma


1. A Quaresma é um tempo que convida os cristãos e as comunidades cristãs a rever a sua vida e os seus compromissos à luz da vida nova recebida no Baptismo. O Baptismo celebrado na água e no Espírito marca a direcção e o ritmo da vida tanto pessoal como comunitária de todos os cristãos e suas comunidades de Fé.
Quando a Quaresma faz apelo a uma oração mais intensa, ao jejum, à esmola e ao encontro mais frequente com a Palavra de Deus concretiza o que deve ser a vida de todo o Baptizado. Por sua vez, quando nos lembra a obrigação de dedicarmos mais tempo ao aprofundamento da Fé quer através de acções de formação quer através de tempos fortes de oração como são os retiros, a Quaresma continua a ajudar-nos a assumir as nossas responsabilidades de Baptizados. Também a própria sociedade em geral pode beneficiar deste tempo da Quaresma entendido como tempo de alguma paragem para repensar a vida e redefinir os seus caminhos para que sejam sempre caminhos de verdadeira humanização

2. A Palavra de Deus hoje proclamada na assembleia do domingo começa por recordar o facto de Deus ter salvo Noé e a sua família das águas do dilúvio. Estas águas acabaram por ser purificadoras e instrumento de salvação. A partir delas Deus pôde fazer com os homens uma aliança de paz simbolizada no arco íris. S. Pedro apresenta-nos hoje, na sua I carta, a figura de Cristo libertador no contexto de uma catequese sobre o Baptismo. De facto pelo Baptismo na água e no Espírito, cada Baptizado fica configurado com Cristo, porque nele acaba o homem velho e começa o homem novo, liberto do pecado e tornado Filho de Deus. No Evangelho de Marcos é-nos apresentado Jesus a ser conduzido pelo Espírito ao deserto, onde preparou, durante 40dias a Sua Vida Pública. É o mesmo Espírito que conduz os cristãos e as comunidades cristãs para o deserto da vida, onde como Cristo, estão sujeitos a muitas tentações, mas também onde são chamados a cumprir a missão de anunciar Cristo Ressuscitado, capaz de transformar o mundo.

3. E é neste mundo concreto onde o Espírito constantemente nos conduz que queremos exercer a nossa responsabilidade do diálogo social para encontrar os verdadeiros caminhos por onde se cumpre a dignidade de todos e de cada um dos seres humanos. E neste diálogo social a primeira pergunta a que temos de responder é a seguinte: O que é o ser humano e como é que ele deve organizar o seu agir no mundo?
De facto, a grande pergunta que todos e cada um de nós temos de colocar e à qual estamos obrigados a responder é a pergunta pela nossa identidade pessoal e pela missão que temos de cumprir no mundo. Quem somos nós, homens e mulheres que habitamos esta terra qual é a nossa missão no mundo?
Numa primeira observação, sentimo-nos muito importantes, porque chamados para grandes ideais e capazes de fazer grades coisas, mas os factos mostram que também grandes males e mesmo muitas catástrofes se deveram a decisões erradas tomadas por seres humanos. Daqui concluímos, que a nossa condição é grande e nobre, mas também que a nossa grandeza é relativa e por isso nunca podemos considerar-nos senhores absolutos da vida e da história.
Para nos ajudar a decifrar este enigma, a Revelação cristã diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e nisto consiste a sua grandeza; mas diz também que, desde o início cedeu à tentação do pecado, o qual desencadeou na história do mundo um processo de confusão e de sofrimento imparáveis.
Diz mais a Revelação cristã que Cristo é o modelo perfeito e completo do ser humano, na sua grandeza e dignidade, porque Filho de Deus. Ele veio restaurar a completa dignidade humana, oferecendo a cada homem e a cada mulher a possibilidade de recuperarem na sua vida pessoal e comunitária a integridade original perdida.
Cada um de nós, na medida em que quiser levar a sério a sua verdade pessoal e a verdade do mundo sente necessidade e obrigação de definir e decidir o seu caminho de vida. E só pode ficar contente se esse caminho de vida definido e levado à prática promover o seu bem pessoal, o bem dos outros e o bem do próprio mundo.
Ao tentar definir esse caminho cada um de nós sente-se dono de si mesmo e com capacidade de escolher. Este é o valor sublime de liberdade.
Mas sente também que tem de responder perante si mesmo, perante os outros e perante a própria natureza, pelas decisões que toma, pelos actos que as levam à prática e também pelos efeitos maus ou bons que eles provocam nos outros e no mundo. Estamos perante o bem supremo da responsabilidade.
No exercício da sua liberdade e responsabilidade, quando tenta definir o seu caminho de vida para construção do seu bem pessoal e o bem dos outros, mas sente que tem de respeitar regras que ele próprio não criou. Sente que essas regras são anteriores às suas decisões e algumas mesmo anteriores a qualquer decisão humana, porque regulam a natureza e o mundo. Pela inteligência e pela razão, ele pode identificar essas leis básicas da sua constituição pessoal e da constituição do próprio mundo. Pela consciência moral, ele sente necessidade de fazer dessas regras básicas a lei da sua própria vida, no exercício da liberdade e responsabilidade. Por sua vez, o Código das leis, seja o das leis civis ou canónicas, seja mesmo o das leis morais, é posterior a esta experiência básica da necessidade que todo o ser humano tem de configurar o seu comportamento com a verdade das pessoas, da história e do mundo. Cada um de nós vive uma moral libertadora quando organiza a sua vida, com liberdade e responsabilidade, no respeito pela verdade e pelas exigências implicadas na construção do bem pessoal e social. Vive moral de escravo quando ignora, propositadamente ou não, a verdade que se lhe impõe e pura e simplesmente cumpre as leis que o obrigam como sendo um jugo ou camisa de forças.
Jesus Cristo, porque imagem perfeita de Deus Pai e modelo ou primogénito de toda a criatura veio revelar o ser humano na sua perfeita identidade.
Por isso, o seguimento de Cristo e a moral do seguimento de Cristo é o caminho mais eficaz para os seus discípulos cumprirem a sua identidade e ajudarem todos os outros seres humanos a progredirem também em humanidade.
A verdade e nunca mentira, mesmo quando é agradável aos sentidos e aos interesses passageiros de pessoas e de grupos, é que tem de ser sempre o critério para as decisões e os comportamentos das pessoas em geral.
Como em Cristo se revela a verdade em todo o seu esplendor, o seguimento de Cristo é sempre caminho de libertação.
Quando nos educamos a nós próprios e em sociedade nos preocupamos com a educação de todos para comportamentos que dão dignidade à Pessoa e às suas relações em sociedade é preciso, em primeiro lugar, procurar saber que liberdade queremos para nós e para os outros. E só há liberdade quando as pessoas se empenham na procura da verdade e na procura dos caminhos por onde a mesma verdade se pode cumprir na vida dos indivíduos e da própria comunidade.
Por sua vez, a educação para o exercício da responsabilidade pessoal e colectiva é outro factor decisivo para o bem das pessoas e para o progresso da sociedade.
Que Deus nos ajude a viver esta Quaresma na procura constante do bem e da verdade, para nosso crescimento pessoal e da própria sociedade.

Sé da Guarda, 1 de Março de 2009

+ Manuel R. Felício, Bispo da Guarda

Homilia da Celebração das Cinzas




Com esta Quarta-Feira de Cinzas, iniciamos o Tempo da Quaresma e com ele o ciclo pascal da Igreja. O Centro deste ciclo é o Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.
No coração deste ciclo está o Tríduo Pascal, celebrado em Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Vigília Pascal. A Quaresma é a sua preparação, durante 40 dias, com 6 domingos. Seguir-se-ão 50 dias de celebração da Páscoa de Jesus Cristo e da Presença do Seu Espírito na vida da Igreja e do mundo até ao Domingo de Pentecostes.
Todo este ciclo é o tempo forte da comunidade cristã, para contemplar o itinerário de Jesus até à Sua Morte e Ressurreição.
Enquanto cabeça da Igreja, Ele convida-nos a segui-lo, a morrer e a ressuscitar com Ele. Ele é o Primogénito de toda a criatura que, amando-se e entregando-se até ao fim, refez o caminho errado de Adão e abriu o caminho da vida nova para toda a Humanidade, convidada de participar na Sua Páscoa. Num mundo cheio de indecisões, amarguras e superficialidades, em que o mais importante e essencial é constantemente posto em lugar subalterno, nós acreditamos que podemos encontrar a verdadeira luz da vida em Jesus Cristo e na Sua Mensagem; acreditamos na força do Seu Espírito, que constantemente nos dá a vida e a esperança.
Esta Quaresma convida-nos por um lado a contemplar o itinerário de Jesus, na obediência total à vontade do Pai; por outro lado, convida-nos a rever os nossos caminhos. Se fizermos com seriedade o confronto dos nossos caminhos com o caminho de Cristo descobriremos a distância entre o caminho de Jesus fiel, humilde, amoroso, generoso até à morte e o percurso dos nossos caminhos.
Nessa distância está o nosso pecado; pecados que havemos de saber reconhecer, mas sobretudo querer eliminar com a nossa atitude de conversão. Precisamos, por isso, de reconhecer que somos egoístas, indiferentes, interesseiros, sensuais, agarrados às coisas materiais, pouco dispostos para o diálogo e o perdão.
A Quaresma é forte apelo de Deus para a nossa conversão e acolhimento do perdão divino que se manifesta na pessoa de Jesus Cristo.
No uso da sua pedagogia sábia e secular, a Igreja recomenda-nos para este tempo litúrgico da Quaresma principalmente 3 práticas: o jejum, a oração e a esmola, a que acrescentamos a Leitura mais intensa da Palavra de Deus. Pela oração intensificamos a comunhão com Deus; pelo jejum crescemos na autodisciplina e sobretudo na nossa disponibilidade interior para acolher as inspirações de Deus; pela esmola fortalecemos a generosidade para com o próximo; no encontro mais regular e intenso com a Palavra de Deus motivamos o encontro vivo e vital com Cristo.
Esta Quarta-Feira é marcada pelo gesto da imposição das cinzas. A cinza simboliza todo o programa espiritual da Igreja. É o reconhecimento do nosso pecado e da nossa fraqueza - “Lembra-te que és pó…”; é o sinal do nosso arrependimento e da nossa conversão – “arrependei-vos e acreditai no Evangelho”.
Vamos viver intensamente a nossa Quaresma. E Vivê-la-emos intensamente se soubermos contemplar o caminho de Jesus para a morte e ressurreição; se aceitamos o convite que nos vai ser dirigido de muitos modos ao longo dos próximos dias, sobretudo na liturgia dos domingos para percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu. Assim aprenderemos o que é a verdadeira vida que nos é oferecida no Baptismo e ficaremos mais iniciados nela.

Catedral da Guarda, 25 de Fevereiro de 2009
+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Mensagem para a Quaresma de 2009




Jesus preparou-se para a Missão rezando e jejuando durante 40 dias e 40 noites (Mt.4,2). Assim nos diz também o que deve ser a nossa Quaresma: Um tempo forte de renovação pessoal e comunitária, para preparar o encontro vivo com o Ressuscitado, na Páscoa.
A Quaresma é o grande retiro de todo o Povo de Deus. E, enquanto retiro, é tempo de alguma paragem para centrarmos a nossa atenção no essencial da nossa vida de cristãos e também de cidadãos; é tempo de oração mais intensa e de encontro mais frequente com a Palavra de Deus; é tempo de fazer contenção face a excessos de vária ordem para que somos solicitados a todo o momento.
Neste grande retiro de 40 dias, somos chamados a renovar e a aprofundar a nossa Fé. Por isso, a formação cristã há-de estar no centro da nossa vivência da Quaresma. Talvez alguns de nós, durante a parte do ano pastoral já decorrida, ainda não tenham tido oportunidade de iniciar o estudo da III parte do Catecismo da Igreja Católica sobre a Moral do Seguimento de Cristo, que faz parte do nosso programa para o ano pastoral em curso. É bom que aproveitemos bem a Quaresma para ler ou reler o pequeno livro que publicámos com o resumo desta parte do Catecismo; é bom que cada uma das nossas comunidades, durante a Quaresma, encontre formas renovadas para relembrar a todos esta obrigação e ajudar a cumpri-la. Convido, por isso, para que os diferentes programas de formação da fé conduzidos por paróquias ou grupos de paróquias, nesta Quaresma, se orientem preferencialmente para aprofundar a Moral do Seguimento de Cristo. Também eu espero orientar nessa direcção as catequeses quaresmais durante os seis domingos da Quaresma.
Uma outra nota marcante da nossa tradição diocesana são os retiros organizados com proximidade à vida dos fiéis. Renovo o convite para que em cada arciprestado haja, nesta Quaresma, pelo menos um retiro aberto, com data e lugar atempadamente marcados e anunciados em todas as respectivas paróquias.
O Santo Padre, na sua mensagem para a Quaresma, convida-nos principalmente a viver o verdadeiro espírito do jejum que nos é recomendado pela disciplina da Igreja. Com a prática do jejum, queremos, antes de mais, dizer a nós mesmos e à sociedade o seguinte: é na relação de dependência amorosa com o Senhor da vida e do mundo que cumprimos a nossa vocação e a nossa missão.
É certo que o jejum também pode ser um bom contributo para a saúde física, para o fortalecimento da auto-disciplina e para a prática da solidariedade com os mais necessitados. Mas o essencial do nosso jejum é libertar-nos interiormente para a relação viva e vital com Cristo Ressuscitado.
Para além do jejum assim entendido, a Quaresma lembra-nos o grave dever da partilha de bens materiais com os mais necessitados. Costumamos cumprir este dever com a nossa renúncia quaresmal. É costume todos os anos indicar um destino concreto para a renúncia quaresmal. O ano passado foi principalmente para as vítimas das grandes cheias que afectaram a vida de milhares moçambicanos.
Este ano vamos destiná-la principalmente para apoio à Irmãs da Liga dos Servos de Jesus, que estão, desde há um ano, em Angola, na Diocese de Sumbe, a iniciar um projecto de acção missionária.
Também estamos muito sensibilizados para o número de desempregados que todos os dias cresce nos nossos meios. Por isso, uma parte dessa renúncia vamos destiná-la para ajudar famílias vítimas do desemprego e algumas a viverem situações de pobreza envergonhada. Procuraremos fazê-lo através dos serviços da Caritas implantados no terreno.

Guarda, 20 de Fevereiro de 2009

+Manuel Felício, Bispo da Guarda